Longa-metragem lembra os esforços do barbeiro sensível para vingar na música pop.
Três anos depois de interpretar o artista nos palcos do teatro, com encenação de Vicente Alves do Ó, o ator Sérgio Praia voltou a deixar crescer a barba, a pôr rímel negro nos olhos, a estudar a própria voz para igualar o timbre e a copiar os gestos e os trejeitos.

‘Variações’ é um retrato biográfico sensível do intérprete de ‘O Corpo é que Paga’, desde ontem em exibição nas salas de cinema.
Com realização de João Maia, o filme, que demorou dez anos a ser preparado, procura mostrar António Variações desde a infância, no Lugar de Pilar (freguesia de Amares), até ao momento em que, de Amesterdão, o então barbeiro escolhe voltar para Portugal de forma a lutar por um lugar na música pop.

Extravagante e ousado para a época, Variações é visto como um sonhador, disposto a tudo por uma carreira como cantor, apesar de não ter qualquer formação. Aliás, a longa-metragem dá conta de vários momentos em que Variações, sozinho num quarto, grava cassetes de forma compulsiva e estuda a entoação de temas, que viriam mais tarde, mesmo a título póstumo, a tornar-se um êxito.
Além de mostrar a relação próxima com uma mãe conservadora, ‘Variações’ destaca a relação apaixonada com Fernando Ataíde (vivido pelo ator Filipe Duarte), que esteve sempre próximo do artista, mesmo depois de se casar com Rosa Maria (Victória Guerra).
Num registo dramático bem elaborado, o filme dá conta também das deambulações de António de uma forma episódica, com destaque para a primeira vez que interpretou o tema ‘Canção de Engate’ ao vivo, na memorável atuação na discoteca Trumps; ou para a vez em que, já doente com Sida, canta na terra natal para felicidade da sua mãe (Teresa Madruga).
‘Variações’ é uma homenagem digna ao artista que morreu há 35 anos e que faria 75 se fosse vivo. O maior aplauso vai para a incorporação de Sérgio Praia que, aos 42 anos, se transfigura nesta personagem real, que lembra, à escala portuguesa, o trabalho em que Rami Malek fez de Freddie Mercury, em ‘Bohemian Rhapsody’.
Realizador escreveu também argumento
O realizador João Maia começou por ser conhecido ao dirigir a série de humor ‘O Programa da Maria’ (2001), com Maria Rueff. Em ‘Variações’, o cineasta escreveu também o argumento.
Irmão do cantor desiludido com filme
O filme ‘Variações’ teve antestreia em Amares, terra do cantor, mas desagradou a um dos irmãos de António Variações.
Carolino Ribeiro, de 60 anos, disse, depois da exibição da obra, que “sem querer, estão a alimentar ainda mais o preconceito em relação ao artista” e que, no filme, se “preocuparam mais com a intimidade do que com a vida artística e profissional” de António.
Perfil
Apenas dois álbuns editados até à sua morte aos 39 anos
António Joaquim Rodrigues Ribeiro nasceu no Lugar de Pilar, em Amares, no seio de uma família numerosa – teve onze irmãos, dois falecidos muito cedo. Fã de Amália Rodrigues e do folclore, partiu para Lisboa com apenas 12 anos.
Foi aprendiz de escritório, barbeiro (não gostava de ser chamado de cabeleireiro) e fez o serviço militar em Angola. Logo depois, passou por Londres e Amesterdão.
Com jeito para a música, mas sem formação, usou uma caixa de ritmos para ensaiar canções que compôs de improviso. António Variações passou pela Valentim de Carvalho, em 1978, onde chegou a assinar contrato.
De visual arrojado e algo andrógino, atuou ao vivo na discoteca Trumps e no Rock Rendez-Vous. Em vida, Variações lançou só dois álbuns: ‘Anjo da Guarda’ (1983) e ‘Dar e Receber’ (1984). Vítima de Sida, morreu com apenas 39 anos devido a uma broncopneumonia.
Alvo de muitas homenagens póstumas, Variações inspirou um disco de versões suas, cantado pelo grupo Humanos, que fez sucesso em 2004.
Fonte: Correio da Manhã
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