No cais do Sodré, numa noite de verão, dois homens beijaram-se e depois o mundo explodiu. Em vez de se assistir ao nascimento de um potencial amor, deu-se a catástrofe do beijo ser minado pela violência. Um homem que passava naquele minuto gritou e insultou os dois homens que se beijavam. Não é, infelizmente, uma história do século passado antes do 25 de Abril e tão pouco uma história inventada. É a realidade, em Lisboa, no século XXI. Hannah Arendt escreveu muito sobre a banalidade do mal. Talvez não a tenhamos presente, mas deveríamos ter.

A maldade de alguém face ao Outro é apenas uma forma de exclusão, uma marginalização e, em simultâneo, uma atitude moralista cujos princípios se constroem na crença individual de estar no caminho certo. São poucas as pessoas capazes de “dar o braço a torcer”, de rever as suas posições. Geralmente, as pessoas acreditam que A é A e que B é B de uma maneira própria, fruto da sua educação e experiência. Não estão disponíveis para entender o mundo distintamente. Dá trabalho e, sobretudo, põe em causa os pilares que tornam estáveis determinadas vidas.

Quando comecei a trabalhar, na década de 80 do século passado (só esta formulação é assustadora!), percebi como era difícil viver o amor em pleno e em liberdade se o amor fosse entre pessoas do mesmo sexo. Casais escondidos, personalidades com vidas de fachada, um rol de maquilhagens distintas para escamotear a verdade? Não, a fachada e a maquilhagem serviam de protecção. A mesma protecção que o meu amigo, no Cais do Sodré, já não contava precisar.

Não estamos livres dos preconceitos dos outros, de nos cruzarmos com pessoas que não entendem que a liberdade delas acaba quando começa a do Outro. Somos aparentemente civilizados. E depois não somos.

O meu amigo não fez queixa, escreveu sobre este acontecimento, magoado e chocado com a violência a que foi sujeito. Ele não esconde a sua sexualidade, nem tem de o fazer.

Tenho outro amigo, mais novo, que querendo assumir a sua sexualidade abertamente foi confrontado com as reservas do namorado por causa do relato de violência no Cais do Sodré. “Não quero passar por aquilo, não quero aquela exposição”.

Em 2017, o serviço de apoio à Vítima da associação ILGA atendeu 367 pessoas. Foram 137 denúncias de violência psicológica, 12 de violência física, 9 de violência sexual, 2 de violência física e sexual, 10 de violência económica e 21 de negligência. A idade média das vítimas, de acordo com o estudo da ILGA, ronda os 29 anos de idade. Os agentes da discriminação face à vítima, para usar a terminologia do mesmo documento, são na maioria desconhecidos (37,11%), seguida pelos pais e mães (10,06%), companheiro ou cônjuge (9,43%), colega de escola (7,55%), chefe ou colega de trabalho (6,29%), funcionário público 83,77%), professor ou auxiliar de educação (2,52%) e outra pessoa da família (1,26%). A maioria das situações reportadas ocorreu em Lisboa (23,8%) e Porto (18,52%). O Observatório da Discriminação em Função da Orientação Sexual e Identidade de Género compila outros dados que são esclarecedores sobre a violência praticada contra a comunidade LGBTI. Reconheço a frieza dos números, essa triste incapacidade das estatísticas: não existindo rosto, existe menos compaixão. Mas os números, os diversos estudos, são importantes para se perceber a dimensão do problema. O relatório está disponível na internet e contém muitas mais informações.

Perante isto, até quando é que se pode esconder o que não é saudável esconder? E como é que se vive a medo? Estas perguntas podem referir-se directamente a esta questão e a tantas outras: xenofobia, racismo, etc. Que as tenhamos que fazer neste tempo é apenas um retrocesso civilizacional que, infelizmente, se desdobra em atitudes e discursos políticos e religiosos. É tempo do mundo ser melhor, das pessoas se aceitarem como são e de aceitarem os outros na sua diferença. Não é demasiado repetir até à exaustão que o caminho ainda está por fazer. Infelizmente.

Fonte: Sapo24


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